Dr. Marcelo Horta Furtado
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Testosterona e fertilidade: o tratamento que pode zerar a produção

A reposição de testosterona costuma melhorar como o homem se sente — e, ao mesmo tempo, desligar silenciosamente a produção de espermatozoides. Para quem quer ter filhos, essa é uma decisão de sequência.

Muitos homens começam a usar testosterona para tratar cansaço, queda de libido ou um exame de testosterona baixa — e só descobrem meses depois, ao tentar ter um filho, que o exame de sêmen voltou zerado. É um dos caminhos mais comuns para uma infertilidade que poderia ter sido evitada. E é o exemplo mais claro de uma decisão de sequência: o tratamento que faz o homem se sentir melhor é o mesmo que, silenciosamente, desliga a produção de espermatozoides.

Este texto explica por que isso acontece, o que costuma ser reversível, e por que — para quem quer ter filhos, agora ou no futuro — a decisão sobre a testosterona precisa ser tomada antes, e não depois.

A testosterona de fora desliga a fábrica de dentro.

Por que a testosterona "de fora" reduz a fertilidade

A produção de espermatozoides depende de um comando que vem do cérebro. A hipófise libera dois hormônios — o FSH e o LH — que estimulam o testículo a produzir espermatozoides e a sua própria testosterona, em concentrações, dentro do testículo, muito mais altas do que no sangue.

Quando a testosterona é administrada de fora (injeção, gel), o cérebro entende que já há hormônio suficiente e desliga esse comando. Sem FSH e LH, o testículo deixa de ser estimulado: a testosterona dentro do testículo despenca e a espermatogênese — a produção de espermatozoides — reduz ou cessa. O resultado pode ser oligospermia grave ou azoospermia (ausência de espermatozoides no exame), mesmo com a testosterona do sangue "normal" ou alta.

É um paradoxo que quase ninguém explica ao paciente: repor testosterona não melhora a fertilidade — na quase totalidade dos casos, a piora.1

Costuma ser reversível — mas não é garantido

A boa notícia é que, na maioria dos casos, ao suspender a testosterona a produção de espermatozoides volta. A recuperação leva tempo — em geral alguns meses, podendo passar de um ano — e depende do tempo de uso, da dose e da reserva do próprio testículo. Em alguns homens, sobretudo após uso prolongado, a recuperação é incompleta.2

Ou seja: reversível não é sinônimo de sem consequência. Meses de espera podem ser exatamente o que um casal com tempo reprodutivo curto não tem.

Anabolizantes contam também

O mesmo mecanismo vale para os esteroides anabolizantes usados para ganho muscular. São, na prática, testosterona (ou derivados) administrada de fora — e desligam a produção própria do mesmo jeito. Uma parcela relevante da infertilidade em homens jovens e saudáveis tem essa origem, muitas vezes não relatada na consulta por constrangimento.

Se você tem testosterona baixa e quer ter filhos

Aqui está o ponto que raramente é colocado ao paciente: tratar o sintoma e preservar a fertilidade não são caminhos excludentes. Para o homem com hipogonadismo (produção insuficiente de testosterona) que deseja ter filhos, existem abordagens que estimulam o próprio corpo a produzir testosterona — em vez de repô-la de fora —, mantendo o comando do cérebro ligado e, com ele, a produção de espermatozoides. A escolha entre repor e estimular é, de novo, uma decisão de sequência, e deve ser feita sabendo o que se quer preservar.

As opções específicas são individualizadas e fogem do escopo deste texto — o objetivo aqui é mostrar que a decisão existe, não prescrevê-la.

Já usa testosterona e quer engravidar?

Na maioria das vezes, o caminho começa por suspender a testosterona e, quando indicado, usar um protocolo para acelerar a recuperação da produção — sempre com acompanhamento e reavaliação do sêmen ao longo do tempo. Em algumas situações, a criopreservação de sêmen (o congelamento de espermatozoides) entra no plano, antes ou durante o processo, para proteger a chance enquanto a produção se recupera.

A decisão é de sequência, não de reposição

A pergunta correta, para o homem que quer ter filhos, nunca foi apenas "minha testosterona está baixa?". É: como tratar o que precisa ser tratado sem fechar a porta que eu ainda quero manter aberta? Responder a isso antes de iniciar qualquer reposição é o que evita o arrependimento de descobrir, tarde demais, que o tratamento custou a fertilidade.

Esse raciocínio — preservar o reversível e ordenar as decisões antes das irreversíveis — é o mesmo que orienta a consulta estratégica e o ensaio o sequenciamento incorreto. Se o seu quadro já inclui ausência de espermatozoides, vale ver também a trilha de azoospermia.

Repor testosterona pode ser a decisão certa — na hora errada, é a que fecha a porta. Para quem quer ter filhos, a ordem importa mais que o hormônio.

Referências

  1. Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, Kurtz EG, Redmon JB, Chiles KA, Lightner DJ, Miner MM, Murad MH, Nelson CJ, Platz EA, Ramanathan LV, Lewis RW. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115. PMID: 29601923.
  2. Rahnema CD, Lipshultz LI, Crosnoe LE, Kovac JR, Kim ED. Anabolic steroid-induced hypogonadism: diagnosis and treatment. Fertil Steril. 2014;101(5):1271-9. doi:10.1016/j.fertnstert.2014.02.002. PMID: 24636400.

Usa (ou vão te indicar) testosterona e quer ter filhos?

Uma avaliação estruturada define a sequência do seu caso — antes de qualquer passo irreversível.